Ninguém trabalha em quase 250 mil famílias capixabas
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Um passado sem oportunidades, um presente de luta pela sobrevivência e um futuro com poucas perspectivas. Para milhares de capixabas é como se a vida de privações já tivesse sido traçada ao nascer. Gerados em famílias humildes, com acesso limitado à educação e à qualificação, eles não conseguiram se inserir no mercado de trabalho e romper o ciclo de pobreza e exclusão.
Dados obtidos com exclusividade por A GAZETA revelam que em 250 mil lares capixabas nenhum morador tem emprego formal, número que representa 19,32% do total das famílias capixabas e demonstra uma piora em relação a 2014, quando esse índice estava em 18,62%. A maior parte dessas casas (164 mil) é chefiada por pais e mães analfabetos ou com baixa escolaridade que, historicamente, tiveram negado o acesso às oportunidades de ensino.
O cruzamento de dados foi feito pelo pesquisador do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets) e diretor de Oportunidades, Pesquisa e Estudos Sociais (OPE Sociais), Samuel Franco, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
A situação capixaba, entretanto, não se diferencia muito da realidade verificada nos demais Estados do Sudeste, mas o histórico de pobreza e falta de oportunidades guarda, aqui, algumas particularidades. Para a pesquisadora e cientista política da Ufes, Marta Zorzal, a exclusão de significativa parcela da população do mercado de trabalho tem a ver com a própria história do Espírito Santo. Ela explica que o ensino foi introduzido tardiamente e sua expansão ficou muito restrita à Grande Vitória. “Isso gerou uma população desqualificada para trabalho. Em geral, são famílias pobres e negras ou pessoas mais idosas que, lá no começo, não tiveram oportunidades de ensino”, pontua.
Outros especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que existe uma desigualdade histórica na distribuição das riquezas geradas no Estado, tanto entre famílias quanto entre municípios. Com o passar dos anos, esse desequilíbrio na balança foi gerando as “ilhas de pobreza”, onde falta tudo, desde saneamento básico até iluminação pública e água tratada.
Com 43 anos e sem nunca ter frequentado a escola, o pedreiro José Valdenir da Silva sabe bem a falda que o estudo faz. “Procuro trabalho e não acho. Há cerca de 30 dias estou ‘parado’, vivendo apenas de ‘bico’. Com essa crise toda, fica ainda mais difícil”, lamenta, enquanto cava uma fossa séptica ao lado dos três filhos, de 4, 7 e 12 anos - bairro onde José mora, em Cariacica, cada morador tem que fazer sua própria fossa, se não quiser jogar esgoto na rua.
A “crise” da qual fala o pedreiro, inclusive, tem feito a situação das famílias, principalmente as mais pobres, piorar a cada semestre. Do início de 2014 para o mesmo período de 2015, aumentou em 23 mil o número de lares que precisam se manter sem emprego formal.
O pesquisador Samuel Franco alerta que esse aumento das famílias fora do mercado de trabalho pode sim estar associado aos efeitos da crise econômica. “A crise aumenta o desemprego. Isso acaba atingindo mais rapidamente esses grupos sociais mais vulneráveis”.
Empobrecimento
Esse pode ser considerado um dos sinais do empobrecimento da população, previsto pelos especialistas num cenário de recessão — estimada em 3% neste ano e em 1% no próximo — e de inflação, que pode chegar a 10% este ano. No país, já são 13,1 milhões de casas em que não há renda do trabalho de carteira assinada.
Os mais jovens, que geralmente tem no primeiro emprego a esperança de construir uma carreira promissora, são os grandes afetados pelos períodos de crise, principalmente quando não se tem formação técnica ou superior.
Apesar da experiência acumulada trabalhando na construção civil, Fábio Ferreira Júnior, de 23 anos, não consegue “fichar” em nenhuma empresa. Ele mora em uma casa apertada, com a esposa, mas nenhum dos dois tem renda formal. Depois de perder o emprego em 2013, Fábio passou a trabalhar com reciclagem de papel para conseguir pagar as contas e comprar comida. “Mas o dinheiro não dá. No nosso país o jovem pobre não tem vez”.
Avanços
Na última década, o Produto Interno Bruto (PIB) estadual deu um salto de mais de 215% e a pobreza caiu drasticamente, de 25,1% (2004) para 7,5% (2014), principalmente devido aos programas de transferência implementados pelo governo federal.
Apesar dos avanços, uma significativa parcela da população continua sem acesso a uma série de direitos básicos. Na avaliação do cientista social e pesquisador do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Marlon Neves Bertolani, um ambiente econômico próspero é importante, mas não é tudo. “Sem escolaridade, qualificação e muitas vezes até sem documento de identidade, uma parte da sociedade pode não colher os frutos desse crescimento exatamente por não ter os meios necessários para acessá-los”.
O pesquisador defende a importância das políticas de transferência de renda, como o Bolsa-Família e Brasil Sem Miséria, cujo custo representa menos de 0,5% do PIB nacional. “Além de mitigar a pobreza, esses programas possibilitam a ruptura do seu ciclo geracional, algo que ocorre principalmente por meio das condicionalidades de educação. Não por acaso, estudos têm apontado um aumento da frequência escolar de crianças e jovens beneficiárias desses programas”.
Um segundo passo, na avaliação dos especialistas, é criar condições para que os beneficiários de programas sociais consigam independência financeira.
 
Fonte: A Gazeta

 

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