OMS 'desconvida' cientistas críticos à Olimpíada para reunião sobre Zika; entenda polêmica
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A controvérsia entre o grupo de 150 cientistas internacionais que pedem adiamento ou transferência da Olimpíada pela epidemia de Zika e a Organização Mundial da Saúde (OMS), que defende a manutenção dos jogos no Rio de Janeiro, acaba de ganhar novo capítulo.

 

Após receber um convite oficial da OMS para participar de um comitê emergencial com o objetivo de discutir problemas neurológicos ligados ao vírus Zika, porta-vozes do grupo que reúne pesquisadores de universidades como Harvard, Oxford e Stanford alegam terem sido "desconvidados" pela organização.
A BBC Brasil teve acesso à troca de e-mails entre as duas partes. Após o convite para o evento, feito em nome da diretora-geral da OMS, Margareth Chan, o professor canadense Amir Attaran pergunta se a participação garante status de membro ou consultor do comitê.
"Poder dialogar é interessante", diz Attaram na conversa com a OMS. "Mas se a ideia for simplesmente ouvir, aí fica menos interessante. A carta aberta enviada à organização e cobertura da mídia já fazem isso."
Na carta, o grupo de especialistas pede que a organização "reveja urgentemente" suas recomendações sobre a doença e alega que o governo brasileiro fracassou no combate ao mosquito Aedes aegypti.
A organização então volta atrás. "Dadas as suas preocupações, a OMS está reconsiderando sua intenção inicial e voltará a entrar em contato para informar se você será convidado ou não para o comitê emergencial."
À BBC Brasil, o especialista canadense Attaran, destinatário das mensagens, classificou a recusa como "falta de transparência".
"Meu palpite é que eles estejam verdadeiramente preocupados com a possibilidade de que mudemos a cabeça de pessoas que estarão no comitê", disse. "Mas este não é o tipo de preocupação que uma organização intelectualmente honesta deveria ter."
 
Procurada pela reportagem, a OMS afirmou que a agenda e os participantes do comitê emergencial "ainda estão sendo definidos".
A organização não respondeu às perguntas relacionadas à troca de e-mails e ao "desconvite" ao pesquisador canadense. Sobre o comitê emergencial, convocado para Genebra, na Suíça, em 14 de julho, a OMS afirmou que "especialistas de vários perfis apresentarão pesquisas e informações relevantes sobre o surto, incluindo o que já foi identificado sobre a microcefalia e outras malformações neonatais e neurológicas como a síndrome de Guillain-Barre".
"O comitê vai rever a situação e determinar se a designação de 'Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional' ainda se aplica, além de quais recomendações deverão ser adicionadas, modificadas ou intensificadas. A Olimpíada é uma parte dos vários temas que serão discutidos", prossegue a OMS.
Riscos
A discordância na comunidade científica ganhou corpo no último dia 27, quando o grupo de especialistas em saúde, direito, bioética e esportes enviou carta aberta à OMS afirmando que a manutenção dos jogos no Rio seria "antiética".
"Um risco desnecessário é colocado quando 500 mil turistas estrangeiros de todos os países acompanham os Jogos, potencialmente adquirem o vírus e voltam para a casa, podendo torna-lo endêmico", dizia o texto.
O principal risco, na avaliação dos pesquisadores, seria que atletas contraíssem a doença e voltassem para suas casas em países pobres que ainda não foram afetados pelo surto da doença.
A reportagem questionou a OMS sobre o tema. "Do ponto de vista de saúde pública, cancelar ou mudar o local da Olimpíada de 2016 não vai alterar significativamente a disseminação internacional do vírus Zika", disseram porta-vozes.
"Para a maioria dos atletas e outros viajantes o risco de infecção é baixo. Apesar disso, podemos esperar que alguns viajantes serão infectados pelo Zika e que novos países reportarão, no futuro, casos 'importados' do Brasil e de outros locais onde o vírus circula.
 
"O risco para mulheres grávidas é significativo, e elas não devem viajar para a Olimpíada ou outras áreas afetadas", continua a Organização.
"A OMS continua a monitorar a transmissão do vírus e seus riscos no Brasil e em outros países, para atualizar as recomendações, se necessário. E vamos continuar a fazê-lo."
A organização diz ainda que suas recomendações são fruto de contribuições de centenas de especialistas independentes e que o Comitê Emergencial é apenas "parte de um amplo leque de atividades conduzidas pela OMS para alcançar conclusões sobre o vírus".
Contraponto
Na última quinta-feira, o novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou que o posicionamento dos cientistas é um "exagero".
"Há um excesso de zelo. A doença já está presente em 60 países. Não será a Olimpíada que vai propagar a doença", afirmou.
Segundo a OMS, 57 países registraram casos de zika em todo o mundo. Mas em apenas oito - Brasil, Colômbia, Martinica, Panamá, Polinésia Francesa (França), Cabo Verde, Eslovênia e Estados Unidos - foram identificados casos de microcefalia e outras malformações fetais "potencialmente associados" à zika.
O grupo de cientistas internacionais alega que as posições do governo brasileiro e da OMS são "perigosas".
"A linhagem do vírus no Brasil é distinta da maioria destes 60 países", disse à reportagem o professor canadense Amir Attaran.
"Digamos que estivéssemos em 1918 e eu dissesse que estou muito preocupado com a gripe espanhola. Aí uma organização importante de saúde diz que não devo me preocupar porque o vírus da gripe já existe em vários países. Entende a metáfora?".
O professor Attaran afirma ainda que questões de saúde pública precisam ser separadas de interesses econômicos.
"De um lado temos a importância econômica dos jogos para o Brasil e o dinheiro que já foi investido nisso. De outro, temos crianças nascendo com problemas cerebrais. Se eles quiserem priorizar o dinheiro, está bem, mas que sejam completamente abertos e transparentes nisso".
Novos casos
O último boletim divulgado pelo ministério da Saúde, na última terça-feira, indica que o número de casos confirmados de microcefalia no Brasil chegou a 1.151. Pernambuco e Bahia, com 363 e 252 casos, respectivamente, são os Estados que registram o maior número de confirmações.
Desde 22 de outubro, quando dados sobre a doença começaram a ser organizados, 7.830 notificações sobre a síndrome foram realizadas. Destas, 3.262 foram descartadas e outras 3.017 seguem em investigação.
 
Fonte: G1

 

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